Pois então - esses tempos eu comprei num sebo de alta periculosidade (é um perigo eu ser sugado a um lugar desses e não conseguir mais sair...) dois números da revista ET CETERA - literatura e arte - [ué? Literatura não é Arte?]) -
Tá vou tentar ser mais breve, mas tolerem os entretantos -
no número 5 (Maio/2005) havia (e continua lá) um artigo de Augusto de Campos sobre Dylan Thomas - seguido por três poemas traduzidos.
Certo, Augusto de Campos é um poeta fora de série, etc e tal e a coisa toda, mas eu tinha certeza de que havia algo ali que não estava totalmente escalafobético (na conotação de supimpa maravilhosíssimo e também ótimo máximo...) -
fui lendo e degustando os saberes e estilo irretocável do príncipe dos poetas concretistas quando de repente (não mais que de repente) ele desliza no tomate e enfia a fuça na maionese (eu tinha a certeza que isso ia acontecer:) - senão vejam:
"Os poemas de Dylan que acompanham este estudo foram mais de uma vez vertidos para o português, mas
nunca sob o critério da tradução-arte, que impõe que se recrie, a par da tensão emocional, a estrutura formal: o ritmo, a concentração e os jogos sonoros, e quando isto é possível, também o esquema rímico original. Não é fácil." [grifo meu]
O negócio é que o excelso Augusto julga que só quando é ele quem se dispõe a traduzir aparece automaticamente seu exclusivo "critério da tradução-arte"...
É de causar muita indignação!
Pois o fato é que a obra poética de Dylan Thomas já foi competentíssima e integralmente traduzida (com toda a arte, em minha modesta opinião) por Ivan Junqueira (não é por ser meu xará que afirmo isso) - e o poema
In my craft or sullen art também recebeu excelente tratamento ao português brasileiro pelo brilhante tradutor Ivo Barroso - as traduções que estes dois fizeram deste poema podem ser conferidas
aqui - e a tradução que Augusto apresentou poderia ser colocada no máximo em terceiro lugar entre as três...
Dos três poemas traduzidos que Augusto apresenta neste artigo na ET CETERA, um merece ser saudado como boa tradução (
AND DEATH SHALL HAVE NO DOMINION - E A MORTE NÃO TERÁ DOMÍNIO) - o que significa um aproveitamento tradutório de 33,33%, que corresponde, na minha opinião, à média de aproveitamento geral da obra de Augusto de Campos, entre ensaios, traduções, poemas concretos e etc (tá, essa foi um pouco forte, mas acho que ele mereceu...)...
Por fim, visto que considerei fraquíssima a tradução de Augusto para
THE FORCE THAT THROUGH THE GREEN FUSE DRIVES THE FLOWER (A FORÇA QUE O PAVIO VERDE CONDUZ À FLOR - só pelo título já dá pra ver que ele perdeu mesmo a mão no ritmo e na escolha de vocabulário, sem falar no detalhe mínimo para uma tradução: o significado, putzgrila!), apresento aqui uma tradução que, sem se arrogar ao critério de tradução-arte e patati-patatá, procura acertar na veia do poema.
THE FORCE THAT THROUGH THE GREEN FUSE DRIVES THE FLOWER
A FORÇA QUE ATRAVÉS DO FUSO VERDE PROPULSIONA A FLOR
The force that through the green fuse drives the flowerDrives my green age; that blasts the roots of treesIs my destroyer.And I am dumb to tell the crooked roseMy youth is bent by the same wintry fever.
A força que através do fuso verde propulsiona a flor
Propulsiona minha idade verde; que detona as raízes de árvores
É minha destruidora.
E eu fico mudo pra falar à rosa retorcida
Que minha juventude dobra-se à mesma febre de inverno.
The force that drives the water through the rocksDrives my red blood; that dries the mouthing streamsTurns mine to wax.And I am dumb to mouth unto my veinsHow at the mountain spring the same mouth sucks.
A força que impulsiona a água através das pedras
Impulsiona meu sangue vermelho; que seca os jorros berrantes
Transforma o meu em cera.
E eu fico mudo pra berrar minhas veias adentro
Como à fonte da montanha a mesma boca suga.
The hand that whirls the water in the poolStirs the quicksand; that ropes the blowing windHauls my shroud sail.And I am dumb to tell the hanging manHow of my clay is made the hangman's lime.
A mão que redemoinha a água numa poça
Agita a areia movediça; que amarra o vento uivante
Arrasta minha vela-mortalha.
E eu fico mudo pra falar ao enforcado
Como de minha argila é feita do carrasco a cal.
The lips of time leech to the fountain head;Love drips and gathers, but the fallen bloodShall calm her sores.And I am dumb to tell a weather's windHow time has ticked a heaven round the stars.
Os lábios do tempo sanguessugam a cabeça-fonte;
O amor escorre e se acumula, mas o sangue derramado
Abrandará as feridas dela.
E eu fico mudo pra falar a um vento intempestivo
Como o tempo marca um firmamento em volta das estrelas.
And I am dumb to tell the lover's tombHow at my sheet goes the same crooked worm.
E eu fico mudo pra falar à sepultura da amante
Como em meus lençóis se arrasta o mesmo verme retorcido.
Dylan Thomas (1933)Ivan Justen Santana (2009)