Terça-feira, Julho 07, 2009

TERROR

Um fantasma percorre o universo.
Alguns espectros erram pela galáxia.
Vários ectoplasmas rondam este planeta.
Dezenas de almas trilham a cidade.
Legiões de sombras se arrastam pelo bairro.
Milhões de vultos assombram o edifício.
Infinitos espíritos pairam sobre o quarto.

Quantas aparições frequentam o teu cérebro?

Segunda-feira, Junho 29, 2009

Tradução-Homenagem a Vincent Price, Orson Welles e ...

Darkness falls across the land.
The midnight hour is close at hand.
Creatures crawl in search of blood
To terrorize y'all's neighborhood.
And whosoever shall be found
Without the soul for getting down
Must stand and face the hounds of hell
And rot inside a corpse's shell.

The foulest stench is in the air,
The funk of forty thousand years,
And grizzly ghouls from every tomb
Are closing in to seal your doom.
And though you fight to stay alive
Your body starts to shiver,
For no mere mortal can resist
The evil of the thriller!

As trevas caem por toda a parte.
Os ponteiros estão perto da meia-noite.
Criaturas rastejam em busca de sangue
Para aterrorizar toda a tua vizinhança.
E quem quer que ainda se ache em vida
Sem a alma necessária para a descida
Deve erguer-se diante dos cães do inferno
E apodrecer dentro dum invólucro eterno.

A forte fedentina vai se espalhando,
Um fedor acumulado em quarenta mil anos,
E de todas as criptas os espectros assassinos
Vêm se aproximando para selar o teu destino.
E apesar de ainda lutares por tua vida
Teu corpo trepida ao terror que o invade,
Pois nenhum mero mortal é capaz de resistir
À sinistra e funesta marca da maldade!

RAP:
Vincent Price
Ivan Justen Santana

Domingo, Junho 14, 2009

Aperitivo pro Bloomsday

(postagem dedicada a Renato Quege, irrestrito leitor de James Joyce)

O poema que apresento aqui foi escrito por James Joyce aos 20 anos de idade, durante sua primeira estadia em Paris, em 1902.

Joyce enviou-o a seu mais prezado amigo de faculdade, John Francis Byrne, em foto-postal, com o título:

Second Part – Openning which tells of the journeyings of the Soul

Segunda Parte – Abertura que fala das jornadas da Alma


Posteriormente o poema foi incluído em Chamber Music (Música de Câmara, 1907), livro de estreia de Joyce, contendo 36 poemas, sendo este o trigésimo-quinto da coleção:


All day I hear the noise of waters
__Making moan,
Sad as the sea-bird is when going
__Forth alone
He hears the winds cry to the waters´
__Monotone.
O dia todo ouço o murmúrio de águas
__Em lamento,
Triste assim como é a gaivota solitária
__Contra o vento
Ouvindo o mar chorando o seu monótono
__Movimento.

The grey winds, the cold winds are blowing
__Where I go.
I hear the noise of many waters
__Far below.
All day, all night, I hear them flowing
__To and fro.
Os ventos frios e cinzentos vêm uivando sobre
__Mim também.
Eu ouço o murmúrio de muitas águas
__Baixo, além.
O dia todo, a noite toda, eu ouço seu eterno
__Vai-e-vem.

James Joyce
Ivan Justen

Terça-feira, Junho 09, 2009

ORQUESTRO A QUEDA DOS MAESTROS

(título com rima semirroubada de n.)

Tropecei em três alephs
que vinham rolando escada abaixo:
esquecera as instruções: usar o pé e o pé!
Ali onde o jardim bifurca não me encaixo –
chamei o velhinho gigantesco de Mumunes
e ele ficou fu-fu-furioso...
Perguntei às ficções e às famas: undr em Uqbar?
mas Averróis já havia desaparecido
e nem sinal de Menard que traduzisse...

Pra cortar a maré amarelinha de azar,
cantei: "Meu cronópio é vermelho".
Fugindo dos labirintos pela autopista do sul
talvez chegasse a tempo de flagrar
no espelho do espelho do outro espelho
o último sorriso do terceiro tigre azul...

Terça-feira, Maio 26, 2009

Com vocês, Thomas Stearns Eliot (sim, eu também sempre quis saber o que o T. S. abreviava...)

(As traduções a seguir são um oferecimento de ossurtado.blogspot.com
ao poeta Augusto de Campos, com toda a joco-seriedade e irrestrito respeito.)

Lines for an Old Man

The tiger in the tiger-pit
Is not more irritable than I.
The whipping tail is not more still
Than when I smell the enemy
Writhing in the essential blood
Or dangling from the friendly tree.
When I lay bare the tooth of wit
The hissing over the archèd tongue
Is more affectionate than hate,
More bitter than the love of youth,
And inaccessible by the young.
Reflected from my golden eye
The dullard knows that he is mad.

Tell me if I am not glad!


VERSOS A UM HOMEM VELHO

O tigre na caverna do tigre
Não é mais irritável que eu.
A cauda de chicote é menos fixa
Que quando eu sinto o cheiro do inimigo
Retorcendo-se no sangue essencial
Ou pendurado na árvore amigável.
Se ponho à mostra o dente da argúcia
O assovio sobre a língua em arco
É mais afetuoso do que o ódio,
Mais amargo que um amor juvenil,
E inacessível a quem mal viveu.
Refletido em meu olhar dourado
O bobalhão sabe que enlouqueceu.

Diga pra mim se alegre não sou eu!

***

(segunda versão:)

VERSINHOS A UM VELHINHO AÍ

Um trigue muito susse, internado,
Não surta mais facinho do que eu.
A cauda do bichano não congela
Mais que quando farejo um mui amigo
Todo torto ali num básico sanguinho
Ou balangando numa árvore querida.
Se chego mais com o meu dente esperto
O pissiu que sai por cima da linguinha
É mais fofo que rancor de muito otário,
Mais amargo do que o teu primeiro amor,
E ´cê não saca se por essa não passou.
Bisolhando-se no espelho do meu zóio
O lóki nem pirou e já enlouqueceu.

Existe alguém mais comédia do que eu?

T.S.Eliot
I.J.Santana

Terça-feira, Maio 19, 2009

Uma postagem desabafo sobre tradução de poesia, com direito a um Dylan Thomas safra 1933...

Pois então - esses tempos eu comprei num sebo de alta periculosidade (é um perigo eu ser sugado a um lugar desses e não conseguir mais sair...) dois números da revista ET CETERA - literatura e arte - [ué? Literatura não é Arte?]) -

Tá vou tentar ser mais breve, mas tolerem os entretantos -

no número 5 (Maio/2005) havia (e continua lá) um artigo de Augusto de Campos sobre Dylan Thomas - seguido por três poemas traduzidos.

Certo, Augusto de Campos é um poeta fora de série, etc e tal e a coisa toda, mas eu tinha certeza de que havia algo ali que não estava totalmente escalafobético (na conotação de supimpa maravilhosíssimo e também ótimo máximo...) -

fui lendo e degustando os saberes e estilo irretocável do príncipe dos poetas concretistas quando de repente (não mais que de repente) ele desliza no tomate e enfia a fuça na maionese (eu tinha a certeza que isso ia acontecer:) - senão vejam:

"Os poemas de Dylan que acompanham este estudo foram mais de uma vez vertidos para o português, mas nunca sob o critério da tradução-arte, que impõe que se recrie, a par da tensão emocional, a estrutura formal: o ritmo, a concentração e os jogos sonoros, e quando isto é possível, também o esquema rímico original. Não é fácil." [grifo meu]

O negócio é que o excelso Augusto julga que só quando é ele quem se dispõe a traduzir aparece automaticamente seu exclusivo "critério da tradução-arte"...

É de causar muita indignação!

Pois o fato é que a obra poética de Dylan Thomas já foi competentíssima e integralmente traduzida (com toda a arte, em minha modesta opinião) por Ivan Junqueira (não é por ser meu xará que afirmo isso) - e o poema In my craft or sullen art também recebeu excelente tratamento ao português brasileiro pelo brilhante tradutor Ivo Barroso - as traduções que estes dois fizeram deste poema podem ser conferidas aqui - e a tradução que Augusto apresentou poderia ser colocada no máximo em terceiro lugar entre as três...

Dos três poemas traduzidos que Augusto apresenta neste artigo na ET CETERA, um merece ser saudado como boa tradução (AND DEATH SHALL HAVE NO DOMINION - E A MORTE NÃO TERÁ DOMÍNIO) - o que significa um aproveitamento tradutório de 33,33%, que corresponde, na minha opinião, à média de aproveitamento geral da obra de Augusto de Campos, entre ensaios, traduções, poemas concretos e etc (tá, essa foi um pouco forte, mas acho que ele mereceu...)...

Por fim, visto que considerei fraquíssima a tradução de Augusto para THE FORCE THAT THROUGH THE GREEN FUSE DRIVES THE FLOWER (A FORÇA QUE O PAVIO VERDE CONDUZ À FLOR - só pelo título já dá pra ver que ele perdeu mesmo a mão no ritmo e na escolha de vocabulário, sem falar no detalhe mínimo para uma tradução: o significado, putzgrila!), apresento aqui uma tradução que, sem se arrogar ao critério de tradução-arte e patati-patatá, procura acertar na veia do poema.

THE FORCE THAT THROUGH THE GREEN FUSE DRIVES THE FLOWER
A FORÇA QUE ATRAVÉS DO FUSO VERDE PROPULSIONA A FLOR

The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.
A força que através do fuso verde propulsiona a flor
Propulsiona minha idade verde; que detona as raízes de árvores
É minha destruidora.
E eu fico mudo pra falar à rosa retorcida
Que minha juventude dobra-se à mesma febre de inverno.

The force that drives the water through the rocks
Drives my red blood; that dries the mouthing streams
Turns mine to wax.
And I am dumb to mouth unto my veins
How at the mountain spring the same mouth sucks.
A força que impulsiona a água através das pedras
Impulsiona meu sangue vermelho; que seca os jorros berrantes
Transforma o meu em cera.
E eu fico mudo pra berrar minhas veias adentro
Como à fonte da montanha a mesma boca suga.

The hand that whirls the water in the pool
Stirs the quicksand; that ropes the blowing wind
Hauls my shroud sail.
And I am dumb to tell the hanging man
How of my clay is made the hangman's lime.
A mão que redemoinha a água numa poça
Agita a areia movediça; que amarra o vento uivante
Arrasta minha vela-mortalha.
E eu fico mudo pra falar ao enforcado
Como de minha argila é feita do carrasco a cal.

The lips of time leech to the fountain head;
Love drips and gathers, but the fallen blood
Shall calm her sores.
And I am dumb to tell a weather's wind
How time has ticked a heaven round the stars.
Os lábios do tempo sanguessugam a cabeça-fonte;
O amor escorre e se acumula, mas o sangue derramado
Abrandará as feridas dela.
E eu fico mudo pra falar a um vento intempestivo
Como o tempo marca um firmamento em volta das estrelas.

And I am dumb to tell the lover's tomb
How at my sheet goes the same crooked worm.
E eu fico mudo pra falar à sepultura da amante
Como em meus lençóis se arrasta o mesmo verme retorcido.

Dylan Thomas (1933)
Ivan Justen Santana (2009)

Sexta-feira, Maio 15, 2009

POEMA IMEDIATO IMPROVISADO PARA GIANNA ROLAND, DE SEU AMADO IVAN

Um verso sem qualquer verbo
na redondilha perdido,
voz vazia no deserto,
num ritmo já por aqui do
bate-estaca regular
calculado pra embalar
corações número par;

pé direito em teto torto
feito a um calcanhar canhoto;
luva que perdeu a mão;
cais que aqui ficou sem porto;

não, não é aquela canção
da Adriana Calcanhoto:
são riscos pra descrever
eu e você, um sem o outro.

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Sintonizando novamente a blogosfera

Topei com uma breve postagem-poema muito bacana de meu caro amigo Mario Negrello, cientista da inteligência humana. Resolvi prontamente fazer a tradução, e antecipo que um comentarista da referida postagem descreveu-a como "uma obra de Escher em palavras".

Senão vejamos...


The unfathomable of the wise

The unfathomable to the wise
Is the obvious to the dimwit
And vice-versa.

Who is who?


O insondável do sábio

O insondável ao sábio
É o óbvio ao estúpido
E vice-versa.

Qual é qual?



Texto original: Mário Negrello
Versão brasileira: Ivan Justen Santana

Sexta-feira, Maio 08, 2009

O POETAÇO E O POETENTO

O poetaço e o poetento
trombaram (que susto!) um com o outro –
o verbo veio violento
à boca do que era o mais douto:

“Eu faço, eu verso, eu aconteço
e esse universo vai ver só:
reconheces não haver preço
em meu cantar de tom tão só?”

O mais humilde, nojentinho,
viu fim no meio do caminho
e disse ao vizinho, mesquinho:
“Não, não beberei deste vinho

passado que você fermenta.”
– enquanto a tardinha, agourenta,
morria sem um som plangente,
antipaticissimamente.

Sexta-feira, Maio 01, 2009

OVILEJOS EM FARRAPOS

Com coragem neste drama, ama.
Intimando a nota prima, rima.
Na vertigem do dilema, lema.

Sem vacilo em hora extrema
Trame um tema que resuma
Toda a terra ou lua alguma
E ame a rima como lema.

Chova uns pingos mas não trema.

Se o seu verso é pouco esperto perto
E as palavras não são cruas ruas
Nem apagam as velinhas linhas

Manje as canjas das galinhas
Demonstrando o ritmo certo
De belezas quase nuas,
Quase suas, quase minhas.

Nunca estanque um corte aberto:
Resta o grito no deserto.

Terça-feira, Abril 28, 2009

Sintonizando a blogosfera

Meu mais que prezado amigo Lepre
inaugurou um blog -
já faz um tempinho, e muita gente já sabe,
mas eu me importo bem menos com novidades
do que com poesia...

Mudando de enfant pra terrible,
vou prestar agora
uma homenagem ao cartunista-poeta
mais bem-humorado de Curitiba...

Quem duvida que estou me referindo ao Solda?

Ele que me desculpe por estas


VARIAÇÕES PARA VERSOS DO SOLDA

um poeta sentado
é um poeta em pé de guerra

um poeta rezando
é um poeta em fé que berra

um poeta lutando
é um poeta em paz na terra

um poeta que morre
é um poeta enfim não erra

Terça-feira, Abril 21, 2009

Para quem ainda acha que letra de música não é poesia...

A ROSE FOR EMILY
UMA ROSA PARA EMÍLIA

Though summer is here at last
The sky is overcast
And no one brings a rose for Emily
O verão finalmente veio
Mas nuvens deixam o céu cheio
E ninguém traz uma rosa para Emília

She watches her flowers grow
While lovers come and go
To give each other roses from her tree
But not a rose for Emily...
Ela vê suas flores se abrindo
E os casais passam indo e vindo
Distribuindo-se rosas de sua roseira
Porém nenhuma rosa para Emília...

Emily, can't you see
There's nothing you can do?
There's loving everywhere
But none for you...
Emília, você não vê?
Não há mesmo nada a fazer
Existe amor por toda parte
Porém nenhum para você...

Her roses are fading now
She keeps her pride somehow
That's all she has protecting her from pain
Suas rosas fenecem agora
Ela mantém o orgulho de alguma forma
É só o que sobrou para protegê-la da dor

And as the years go by
She will grow old and die
The roses in her garden fade away
Not one left for her grave
Not a rose for Emily...
E à medida que o tempo escorrer
Ela vai envelhecer e morrer
As rosas do jardim desaparecerão
Nenhuma restará para seu caixão
Nenhuma rosa para Emília...

The Zombies (Rod Argent)
Ivan Justen Santana



Para ouvir a maravilhosa canção dos Zombies clique aqui.

Terça-feira, Abril 14, 2009

Eloquência com azeite de oliva


À ré poesia a verdade é a sentença,
desde que a nós, cegos poetas, coube
consagrar com oniscipotenpresença
até o mais modesto, humilde e simples pé de couve –

portanto: que o único calo que me cale,
que a única bela que não me abale
e que o único amor que me amordace
eu colha nas fímbrias das fibras duma folha de alface.

Segunda-feira, Abril 13, 2009

essa imagem vale mais que mil poemas