Terça-feira, Novembro 17, 2009
Sábado, Novembro 07, 2009
CARMINA I, 4
SOLUITUR ACRIS HIEMS GRATA UICE UERIS ET FAUONI
__TRAHUNTQUE SICCAS MACHINAE CARINAS
AC NEQUE IAM STABULIS GAUDET PECUS AUT ARATOR IGNI
__NEC PRATA CANIS ALBICANT PRUINIS
IAM CYTHEREA CHOROS DUCIT UENUS IMMINENTE LUNA
__IUNCTAEQUE NYMPHIS GRATIAE DECENTES
ALTERNO TERRAM QUATIUNT PEDE DUM GRAUIS CYCLOPUM
__VOLCANUS ARDENS UISIT OFFICINAS
NUNC DECET AUT UIRIDI NITIDUM CAPUT IMPEDIRE MYRTO
__AUT FLORE TERRAE QUEM FERUNT SOLUTAE
NUNC ET IN UMBROSIS FAUNO DECET IMMOLARE LUCIS
__SEU POSCAT AGNA SIUE MALIT HAEDO
PALLIDA MORS AEQUO PULSAT PEDE PAUPERUM TABERNAS
__REGUMQUE TURRIS O BEATE SESTI
UITAE SUMMA BREUIS SPEM NOS UETAT INCHOARE LONGAM
__IAM TE PREMET NOX FABULAEQUE MANES
ET DOMUS EXILIS PLUTONIA QUO SIMUL MEARIS
__NEC REGNA UINI SORTIERE TALIS
NEC TENERUM LYCIDAN MIRABERE QUO CALET IUUENTUS
__NUNC OMNIS ET MOX UIRGINES TEPEBUNT
Dissolve-se o áspero inverno, voltando a estação agradável,
__e secas se arrastam as quilhas dos barcos;
já não se aconchegam no estábulo o gado e ao fogo o campônio,
__nem prados alvejam com brancas geadas.
Já Vênus Citérea os coros conduz, sob a Lua alta,
__e junto das Ninfas as Graças tão belas
batem os pés alternados na terra, enquanto aos Ciclopes
__o ardente Vulcano visita nas forjas.
Agora convém elegante envolver a cabeça com o verde mirto
__ou flores que brotam das terras aráveis;
agora também é mister nas sombrias florestas fazer sacrifícios
__ao Fauno, quer queira cordeiros ou mesmo cabritos.
A pálida Morte marcha igualmente em tavernas de pobres
__e em torres de reis. Ó Sesto feliz,
a vida tão breve proíbe erigir esperanças extensas;
__jjá oprimem-te a Noite, as almas das fábulas
e a fúnebre casa Plutônia, aonde tão logo chegares
__não sortearás com teus dados os goles de vinho
nem admirarás o suave Lícidas, por quem ora arde
__toda a juventude e em breve as virgens ferverão.
QUINTUS HORATIUS FLACCUS
Ivan Justen Santana
__TRAHUNTQUE SICCAS MACHINAE CARINAS
AC NEQUE IAM STABULIS GAUDET PECUS AUT ARATOR IGNI
__NEC PRATA CANIS ALBICANT PRUINIS
IAM CYTHEREA CHOROS DUCIT UENUS IMMINENTE LUNA
__IUNCTAEQUE NYMPHIS GRATIAE DECENTES
ALTERNO TERRAM QUATIUNT PEDE DUM GRAUIS CYCLOPUM
__VOLCANUS ARDENS UISIT OFFICINAS
NUNC DECET AUT UIRIDI NITIDUM CAPUT IMPEDIRE MYRTO
__AUT FLORE TERRAE QUEM FERUNT SOLUTAE
NUNC ET IN UMBROSIS FAUNO DECET IMMOLARE LUCIS
__SEU POSCAT AGNA SIUE MALIT HAEDO
PALLIDA MORS AEQUO PULSAT PEDE PAUPERUM TABERNAS
__REGUMQUE TURRIS O BEATE SESTI
UITAE SUMMA BREUIS SPEM NOS UETAT INCHOARE LONGAM
__IAM TE PREMET NOX FABULAEQUE MANES
ET DOMUS EXILIS PLUTONIA QUO SIMUL MEARIS
__NEC REGNA UINI SORTIERE TALIS
NEC TENERUM LYCIDAN MIRABERE QUO CALET IUUENTUS
__NUNC OMNIS ET MOX UIRGINES TEPEBUNT
Dissolve-se o áspero inverno, voltando a estação agradável,
__e secas se arrastam as quilhas dos barcos;
já não se aconchegam no estábulo o gado e ao fogo o campônio,
__nem prados alvejam com brancas geadas.
Já Vênus Citérea os coros conduz, sob a Lua alta,
__e junto das Ninfas as Graças tão belas
batem os pés alternados na terra, enquanto aos Ciclopes
__o ardente Vulcano visita nas forjas.
Agora convém elegante envolver a cabeça com o verde mirto
__ou flores que brotam das terras aráveis;
agora também é mister nas sombrias florestas fazer sacrifícios
__ao Fauno, quer queira cordeiros ou mesmo cabritos.
A pálida Morte marcha igualmente em tavernas de pobres
__e em torres de reis. Ó Sesto feliz,
a vida tão breve proíbe erigir esperanças extensas;
__jjá oprimem-te a Noite, as almas das fábulas
e a fúnebre casa Plutônia, aonde tão logo chegares
__não sortearás com teus dados os goles de vinho
nem admirarás o suave Lícidas, por quem ora arde
__toda a juventude e em breve as virgens ferverão.
QUINTUS HORATIUS FLACCUS
Ivan Justen Santana
Terça-feira, Novembro 03, 2009
EDGAR WILLIAM ALLAN BLAKE POE
Edgar Allan Poe, investido de corvo,
Encontra William Blake em pele de tigre:
A este a pelugem empresta um ar de estorvo
E àquele a plumagem negra não denigre.
Assim figurei-os na imaginação
E um, só por ter visto o outro, se embeveceu
Pois ambos pensaram, cheios de razão:
“Meu poema-bicho é mais animal que o seu!”

Encontra William Blake em pele de tigre:
A este a pelugem empresta um ar de estorvo
E àquele a plumagem negra não denigre.
Assim figurei-os na imaginação
E um, só por ter visto o outro, se embeveceu
Pois ambos pensaram, cheios de razão:
“Meu poema-bicho é mais animal que o seu!”

Sexta-feira, Outubro 23, 2009
PARA QUE OS MEUS AMIGOS NÃO SEJAM INFELIZES (E O RENATO VOLTE A POSTAR)
No meio do caminho da poesia
as formas ondulantes voltam como
sempre. A vontade brilhante e sombria
é refazer quem, quando, por que, como.
Onde encontrar a velha vaca fria?
Qual será a língua da vaca sagrada?
As antas e os tatus de antologia
vazam do mato que a ninguém agrada.
E você, o que quer, meu caro Ivan?
Tanta firula e nada de chutar?
Empacou na quadra quadrada e vã
ou vai enfim chegar nalgum lugar?
Bom, o que eu queria, queria muito,
muito bastante mesmo (gaguejando)
era que, mais que um blábláblá fortuito,
meu verso tivesse poder de mando.
Primeiro, pra mandar os meus amigos
largarem mão de brigas por bobeira,
erguendo os olhos longe dos umbigos
(essa foi pro Renato e pro Ferreira).
Segundo, não sei. Era isso que estava
sujando a minha veia de poeta:
venenos agindo na vida brava
e eu só versando feito um mero esteta.
Quero influir na vida de verdade
e, mais que rimas ricas e solenes,
conseguir resgatar uma amizade,
reconciliando a banda dos Marlenes.
Se meus amigos têm que tomar algo,
eu resolvi tomar uma atitude:
o resto é com vocês. Agora eu salgo
essa sopinha e fim – fiz o que pude.
as formas ondulantes voltam como
sempre. A vontade brilhante e sombria
é refazer quem, quando, por que, como.
Onde encontrar a velha vaca fria?
Qual será a língua da vaca sagrada?
As antas e os tatus de antologia
vazam do mato que a ninguém agrada.
E você, o que quer, meu caro Ivan?
Tanta firula e nada de chutar?
Empacou na quadra quadrada e vã
ou vai enfim chegar nalgum lugar?
Bom, o que eu queria, queria muito,
muito bastante mesmo (gaguejando)
era que, mais que um blábláblá fortuito,
meu verso tivesse poder de mando.
Primeiro, pra mandar os meus amigos
largarem mão de brigas por bobeira,
erguendo os olhos longe dos umbigos
(essa foi pro Renato e pro Ferreira).
Segundo, não sei. Era isso que estava
sujando a minha veia de poeta:
venenos agindo na vida brava
e eu só versando feito um mero esteta.
Quero influir na vida de verdade
e, mais que rimas ricas e solenes,
conseguir resgatar uma amizade,
reconciliando a banda dos Marlenes.
Se meus amigos têm que tomar algo,
eu resolvi tomar uma atitude:
o resto é com vocês. Agora eu salgo
essa sopinha e fim – fiz o que pude.
Terça-feira, Outubro 06, 2009
AO LONGO DA TORRE DE CONTROLE
– Tem que ter uma saída de emergência –
Disse o coringa para o ladrão,
– Eu já não acho mais paciência
No meio de tanta confusão.
Peões cavam no meu cercado,
Empresários bebem o meu vinho,
Mas ninguém sabe o valor estimado
Duma pedra no meio do caminho.
– Não adianta ficar nervoso –
Disse o ladrão, em tom bondoso.
– Muitos de nós têm a ideia engraçada
Que a vida não passa duma piada.
Mas eu e você já passamos por essa
E não fazemos mais fé em promessa,
Então vamos deixar de falsidade
Porque o tempo já vai tarde.
Ao longo da torre de controle
O Príncipe vigiava atentamente,
Iam e vinham as mulheres da corte
E os pés descalços da sua gente.
Lá fora, na distância gelada,
Um gato selvagem rompeu a rosnar,
Dois cavaleiros se aproximavam
E o vento inventava de uivar.
Versão brasileira feita por este que vos escreve - quem comentar respondendo de quem é o "texto original" e acertar, ganhará três links de presente...
Disse o coringa para o ladrão,
– Eu já não acho mais paciência
No meio de tanta confusão.
Peões cavam no meu cercado,
Empresários bebem o meu vinho,
Mas ninguém sabe o valor estimado
Duma pedra no meio do caminho.
– Não adianta ficar nervoso –
Disse o ladrão, em tom bondoso.
– Muitos de nós têm a ideia engraçada
Que a vida não passa duma piada.
Mas eu e você já passamos por essa
E não fazemos mais fé em promessa,
Então vamos deixar de falsidade
Porque o tempo já vai tarde.
Ao longo da torre de controle
O Príncipe vigiava atentamente,
Iam e vinham as mulheres da corte
E os pés descalços da sua gente.
Lá fora, na distância gelada,
Um gato selvagem rompeu a rosnar,
Dois cavaleiros se aproximavam
E o vento inventava de uivar.
Versão brasileira feita por este que vos escreve - quem comentar respondendo de quem é o "texto original" e acertar, ganhará três links de presente...
Quarta-feira, Setembro 30, 2009
Poemento de circuritinstância
Hoje dois eventos que ocorrem esta noite me chamaram a textualizar.
Em São Paulo, inaugura-se uma ocupação-exposição da obra de Paulo Leminski, por iniciativa e esforços de Ademir Assunção - maiores detalhes aqui.
Aqui em Curitiba, o jornalista Luiz Claudio Oliveira lança livro sobre a revista Joaquim e seu conspícuo fundador, Dalton Trevisan - outras informações aqui.
Esses acontecimentos me lembraram (e não sei por que) de um poema de Emiliano Perneta, mais especificamente de um verso-risada dele. Fui procurá-lo nesta vasta e áspera rede de silício e não achei.
Ponto para os livros que dormem nas bibliotecas, e que desencavarei pra reproduzir o poema nesta postagem, se possível ainda hoje.
E há mais um acontecimento pra celebrar as nossas letras (se me permitem esta expressão arcaica, e se não permitem vão lá ver se tem um fusca gelo na esquina...) -
Alice Ruiz ganhou o Jabuti de poesia deste ano.
Assim, eu por mim já estou exausto de vergonha reprimida pra não me sentir no mínimo ufano e orgulhoso por ser um escrevinhador curitibano...
(acréscimo em primeiro de outubro:)
O lançamento do livro do Luiz Claudio foi ótimo, e não tenho nenhuma dúvida de que a inauguração da ocupação Leminski em SP também foi uma noitada excelente.
Então aqui vai o poema do Emiliano Perneta que lembrei ontem: acho que lembrei desse poema por conta da radicalidade de versos publicados aqui na "província" em 1911. São versos pra modernista nenhum achar antiquados, e antecipam até mesmo um soneto-retrô do Marcos Prado.
Apesar de encarnarem a voz da morte, leio ironicamente nesses versos uma prova de vida. A transcrição vai especialmente dedicada à Nara (que repostou esta singela postagem e tenho certeza de que vai curtir o poema), com um salve também à Alice Ruiz e a todos os poetas e artistas que tiveram a dúbia sorte e o precioso azar de nascer-viver-morrer no estado do Paraná...
D. MORTE
entrando num albergue:
– Mãe, que és tão pobre e não tens leite,
Ó dor crescente! ó lua cheia!
Vida – candeia sem azeite,
Olha-me, vê, não sou tão feia!
_____Pé ante pé,
_____Queres? olé!
Glacial, esguia, num momento,
Eu entro, sopro essa candeia...
_____Queres? olá!
Quem foi? quem foi?
_____– O norte, o vento...
Ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah!
Emiliano Perneta (Ilusão, 1911)
Em São Paulo, inaugura-se uma ocupação-exposição da obra de Paulo Leminski, por iniciativa e esforços de Ademir Assunção - maiores detalhes aqui.
Aqui em Curitiba, o jornalista Luiz Claudio Oliveira lança livro sobre a revista Joaquim e seu conspícuo fundador, Dalton Trevisan - outras informações aqui.
Esses acontecimentos me lembraram (e não sei por que) de um poema de Emiliano Perneta, mais especificamente de um verso-risada dele. Fui procurá-lo nesta vasta e áspera rede de silício e não achei.
Ponto para os livros que dormem nas bibliotecas, e que desencavarei pra reproduzir o poema nesta postagem, se possível ainda hoje.
E há mais um acontecimento pra celebrar as nossas letras (se me permitem esta expressão arcaica, e se não permitem vão lá ver se tem um fusca gelo na esquina...) -
Alice Ruiz ganhou o Jabuti de poesia deste ano.
Assim, eu por mim já estou exausto de vergonha reprimida pra não me sentir no mínimo ufano e orgulhoso por ser um escrevinhador curitibano...
(acréscimo em primeiro de outubro:)
O lançamento do livro do Luiz Claudio foi ótimo, e não tenho nenhuma dúvida de que a inauguração da ocupação Leminski em SP também foi uma noitada excelente.
Então aqui vai o poema do Emiliano Perneta que lembrei ontem: acho que lembrei desse poema por conta da radicalidade de versos publicados aqui na "província" em 1911. São versos pra modernista nenhum achar antiquados, e antecipam até mesmo um soneto-retrô do Marcos Prado.
Apesar de encarnarem a voz da morte, leio ironicamente nesses versos uma prova de vida. A transcrição vai especialmente dedicada à Nara (que repostou esta singela postagem e tenho certeza de que vai curtir o poema), com um salve também à Alice Ruiz e a todos os poetas e artistas que tiveram a dúbia sorte e o precioso azar de nascer-viver-morrer no estado do Paraná...
D. MORTE
entrando num albergue:
– Mãe, que és tão pobre e não tens leite,
Ó dor crescente! ó lua cheia!
Vida – candeia sem azeite,
Olha-me, vê, não sou tão feia!
_____Pé ante pé,
_____Queres? olé!
Glacial, esguia, num momento,
Eu entro, sopro essa candeia...
_____Queres? olá!
Quem foi? quem foi?
_____– O norte, o vento...
Ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah!
Emiliano Perneta (Ilusão, 1911)
Quarta-feira, Setembro 23, 2009
Sábado, Setembro 12, 2009
Feriado em Floripa
Neste feriado de setembro, eu e minha nega Gianna fomos pra Floripa, visitar a mãe dela e seu feliz consorte.
As fotos já falam o suficiente sobre como foi a viagem.
Fiz uma ivanzice e não avisei meu amigo Vinícius Alves, poeta local, que iríamos baixar por lá.
É que seria a primeira visita aos sogros, e eu também queria explorar a ilha por minha conta e risco...
Enfim, não há nenhuma justificativa boa pra ter feito tal desfeita - assim, faço um poema...
PREZADO VINÍCIUS,
o ser curitibano é assim: esquivo,
soturno, depressor e repressivo -
contudo, sempre surge quem é vivo...
Então não invoco nem razão nem coração
pra justificar minha falseta tão sacana -
no entanto, aceite este pedido de perdão
do seu poeta camarada
_________________Ivan Justen Santana
Quarta-feira, Setembro 02, 2009
(...) BEM QUE EU TENTEI DESPISTAR A GOVERNANTA...
porém a poesia pinup poppins veio voando de sombrinha
___e um verso jason me perseguiu até o fim da linha –
tinha uma rima ali muito na sua que também tava na minha
___feito alguma avezinha suavezinha que se avizinha
quando você já despachou o vizinho e refugou a vizinha
___só pra ler sossegado o seu jogo da amarelinha
e aí chega a sua gostosa atrás do açúcar que você nem tinha
___e então vocês passam a noite toda trocando figurinha,
lendo, anotando, interpretando e comentando
___a carta de pero vaz de caminha
___e um verso jason me perseguiu até o fim da linha –
tinha uma rima ali muito na sua que também tava na minha
___feito alguma avezinha suavezinha que se avizinha
quando você já despachou o vizinho e refugou a vizinha
___só pra ler sossegado o seu jogo da amarelinha
e aí chega a sua gostosa atrás do açúcar que você nem tinha
___e então vocês passam a noite toda trocando figurinha,
lendo, anotando, interpretando e comentando
___a carta de pero vaz de caminha
Segunda-feira, Agosto 31, 2009
DÍSTICOS ENSIMÍSTICOS (ou PORQUE HOJE É MAIS UMA MANHÃ DE SEGUNDA...)
Porque hoje é mais uma manhã de segunda
atiro mais um poema que não boia nem afunda
neste blog blaguejante – e com isso me permito
mais um neologismo meio feio e bem bonito.
Desoxirribonucleicamente hipomaníaco,
estribo-me na borboleta do teu osso ilíaco,
ó musa que me averiguou num verão passado:
ainda me averiguas, nua, como temos passado...
Sim, minha linguagem segue sendo hermeticazinha
e talvez eu seja mesmo um piá brincando de casinha,
simplesmente um sapato semivelho – mas ainda sirvo
pra fazer outra rima acabar em livro. Antes de ir, vo-
cês podem comentar aqui na caixa de comentários
e infeccionar mais a blogosfera com vírus vários –
clamem, reclamem e trocem: suas troças me soltam
a macaqueá-las com meus macaquinhos no sótão.
Estar ou não estar – é isto que está em questão:
por que esta dúvida estarrecerá – e outras não?
Afinal, largo ao elíptico e elusivo leitor uns sinais
na tentativa vã de ivan em versos verbivocovisuais:
agora você vê, agora você não V – seja feliz
nos ângulos dos eNes e nos pingos dos Is –
leiafaleveja o que há no vértice desse ralo A
– basta olhar o nada nessa letra e decifra-lo-á.
atiro mais um poema que não boia nem afunda
neste blog blaguejante – e com isso me permito
mais um neologismo meio feio e bem bonito.
Desoxirribonucleicamente hipomaníaco,
estribo-me na borboleta do teu osso ilíaco,
ó musa que me averiguou num verão passado:
ainda me averiguas, nua, como temos passado...
Sim, minha linguagem segue sendo hermeticazinha
e talvez eu seja mesmo um piá brincando de casinha,
simplesmente um sapato semivelho – mas ainda sirvo
pra fazer outra rima acabar em livro. Antes de ir, vo-
cês podem comentar aqui na caixa de comentários
e infeccionar mais a blogosfera com vírus vários –
clamem, reclamem e trocem: suas troças me soltam
a macaqueá-las com meus macaquinhos no sótão.
Estar ou não estar – é isto que está em questão:
por que esta dúvida estarrecerá – e outras não?
Afinal, largo ao elíptico e elusivo leitor uns sinais
na tentativa vã de ivan em versos verbivocovisuais:
agora você vê, agora você não V – seja feliz
nos ângulos dos eNes e nos pingos dos Is –
leiafaleveja o que há no vértice desse ralo A
– basta olhar o nada nessa letra e decifra-lo-á.
Sábado, Agosto 22, 2009
"Quando você nasceu, caiu numa tina de sextinas..."
Doutor nenhum usou tesoura pra este corte
que repartiu meu ser assimétrico assim
e ao satírico pã que sobrou meio à parte
deu flauta de bambu. Nunca flauteei-a bem,
pois sua escala em si define um universo
desmesuradamente infinitesimal.
Lamento muito e sei: não vão achar normal
que eu me remonte ao tom da sextina e recorte
cada cesura – triz! –, cada fatia-verso,
e lance mão de sons – flup! – sem sentido assim,
e gagueje de pró-propósito... Também
ninguém mandou vocês aqui buscarem arte.
Isso que eu faço assim se faz por toda parte
nos reinos mineral, vegetal e animal:
mera reprodução, espelhamento bem
simplório, sim, pois não! Então tome outro corte
no seu bedelhozinho expectativo sim-
ples de grande leitor e masque mais um verso,
um corpo que não cai, um romance ao reverso,
uma rua sem mão, sem cardápio à la carte,
descendo muito mal porque se desse assim
essa semifração decimal desse mal
pra todo mundo não teria mais um corte
bem na cena final pra acabar tudo bem.
Gostei das locuções: mais umas caem bem:
uns loucos sem sessões, outrossins noutro verso,
as rimas sem seus sons, e novamente um corte
pra algo completamente indiferente e à parte:
um Thor de força atroz, um Lóki não-do-mal,
um filho de Odin que faça do não sim
feito aquele versinho assim: não, não, não, sim.
Tá: agora abusei, mas se não fui tão bem,
não fui lá tão – latão? – é, latão: lá tão mal...
Eu só tentei fazer uma sextina verso
a verso, pra ver só como é versar destarte
sem nem tema de amor nem qualquer – mais um corte!
Enfim reverto sim à velha volta ao verso,
desculpo-me a meu bem, que a vida é parca em arte,
e acho esse final mau mas pronto pra outro corte.
que repartiu meu ser assimétrico assim
e ao satírico pã que sobrou meio à parte
deu flauta de bambu. Nunca flauteei-a bem,
pois sua escala em si define um universo
desmesuradamente infinitesimal.
Lamento muito e sei: não vão achar normal
que eu me remonte ao tom da sextina e recorte
cada cesura – triz! –, cada fatia-verso,
e lance mão de sons – flup! – sem sentido assim,
e gagueje de pró-propósito... Também
ninguém mandou vocês aqui buscarem arte.
Isso que eu faço assim se faz por toda parte
nos reinos mineral, vegetal e animal:
mera reprodução, espelhamento bem
simplório, sim, pois não! Então tome outro corte
no seu bedelhozinho expectativo sim-
ples de grande leitor e masque mais um verso,
um corpo que não cai, um romance ao reverso,
uma rua sem mão, sem cardápio à la carte,
descendo muito mal porque se desse assim
essa semifração decimal desse mal
pra todo mundo não teria mais um corte
bem na cena final pra acabar tudo bem.
Gostei das locuções: mais umas caem bem:
uns loucos sem sessões, outrossins noutro verso,
as rimas sem seus sons, e novamente um corte
pra algo completamente indiferente e à parte:
um Thor de força atroz, um Lóki não-do-mal,
um filho de Odin que faça do não sim
feito aquele versinho assim: não, não, não, sim.
Tá: agora abusei, mas se não fui tão bem,
não fui lá tão – latão? – é, latão: lá tão mal...
Eu só tentei fazer uma sextina verso
a verso, pra ver só como é versar destarte
sem nem tema de amor nem qualquer – mais um corte!
Enfim reverto sim à velha volta ao verso,
desculpo-me a meu bem, que a vida é parca em arte,
e acho esse final mau mas pronto pra outro corte.
Domingo, Agosto 16, 2009
DIGA SIM OU NÃO: SIM OU NÃO
Não. Um bom versinho não se faz
com pouco risco e menos traço.
Seria melhor deixá-los em paz.
Não agir.
Não traduzir.
Não fazer o que ainda faço.
Mis pasos en esta calle
Resuenan
_________En otra calle
Donde
______Oigo mis pasos
Pasar en esta calle
Donde
Sólo es real la niebla.
________OCTAVIO PAZ
(apud Julio Cortázar,
Rayuela, capítulo 149)
Meus passos nesta praça
Ressoam
________Noutra praça
Onde
_____Ouço meus passos
Passar nesta praça
Onde
Só é real a névoa.
________OCTAVIO PAZ
(Versão brasileira:
Ivan Justen Santana)
Por que trocar calle por praça?
Porque poesia é assim:
numa língua vai de skate,
noutra, de patim...
Sim. Poesia se faz
arriscando-se o pescoço no laço
sem deixar verso algum descansar em paz!
Traduzo sem fuso
e cometendo abuso
com nossa última flor do lácio
a qual classificar-se-ia de fóssil
ou de animalzinho dócil
se ela fosse fêmea fácil.
com pouco risco e menos traço.
Seria melhor deixá-los em paz.
Não agir.
Não traduzir.
Não fazer o que ainda faço.
Mis pasos en esta calle
Resuenan
_________En otra calle
Donde
______Oigo mis pasos
Pasar en esta calle
Donde
Sólo es real la niebla.
________OCTAVIO PAZ
(apud Julio Cortázar,
Rayuela, capítulo 149)
Meus passos nesta praça
Ressoam
________Noutra praça
Onde
_____Ouço meus passos
Passar nesta praça
Onde
Só é real a névoa.
________OCTAVIO PAZ
(Versão brasileira:
Ivan Justen Santana)
Por que trocar calle por praça?
Porque poesia é assim:
numa língua vai de skate,
noutra, de patim...
Sim. Poesia se faz
arriscando-se o pescoço no laço
sem deixar verso algum descansar em paz!
Traduzo sem fuso
e cometendo abuso
com nossa última flor do lácio
a qual classificar-se-ia de fóssil
ou de animalzinho dócil
se ela fosse fêmea fácil.
Terça-feira, Agosto 11, 2009
CEMITÉRIO AÉREO
O olho que escorreu da minha testa
(é favor escandir o hiato: o – olho)
com gesto de quem morre e não protesta
sim sim este olho que desfez-se em molho
foi o rio rubro mais feliz de mim,
melhor que sensação de não-mereço,
maior que a rima alargada no fim,
mais sim que frase de amor no começo.
Foi com tal olho que perdi o contato
duma verdade a qual não foi tão tarde:
aquela mais-verdade do retrato
do artista quando jovem cão covarde
que não viaja numa noite fria
depois do cerco de quarenta invernos,
mas que requenta sim a poesia
e sim repete-a aos quintos dos infernos.
Naquela não-pupila eu fui desejo
de amordaçar a primeira pessoa
e fundir tudo em tudo – ser que almejo
quando o gongo do último assalto soa
por fora da ilusão do tempo-espaço
e o mundo bolha explode sem registro
sem som sem tom sem cor sem descompasso
num assombroso silêncio sinistro.
Junto com o olho foi qualquer suspeita
de que eu cifrasse em versos simples isto
numa levada em que tudo se ajeita
e não sobra a má impressão que despisto.
Assim, exausto de usar tantos ques
os quais nem deixam um quê de mistério,
desovo outro corpo morto a vocês,
meus caros hóspedes dum cemitério aéreo.
(é favor escandir o hiato: o – olho)
com gesto de quem morre e não protesta
sim sim este olho que desfez-se em molho
foi o rio rubro mais feliz de mim,
melhor que sensação de não-mereço,
maior que a rima alargada no fim,
mais sim que frase de amor no começo.
Foi com tal olho que perdi o contato
duma verdade a qual não foi tão tarde:
aquela mais-verdade do retrato
do artista quando jovem cão covarde
que não viaja numa noite fria
depois do cerco de quarenta invernos,
mas que requenta sim a poesia
e sim repete-a aos quintos dos infernos.
Naquela não-pupila eu fui desejo
de amordaçar a primeira pessoa
e fundir tudo em tudo – ser que almejo
quando o gongo do último assalto soa
por fora da ilusão do tempo-espaço
e o mundo bolha explode sem registro
sem som sem tom sem cor sem descompasso
num assombroso silêncio sinistro.
Junto com o olho foi qualquer suspeita
de que eu cifrasse em versos simples isto
numa levada em que tudo se ajeita
e não sobra a má impressão que despisto.
Assim, exausto de usar tantos ques
os quais nem deixam um quê de mistério,
desovo outro corpo morto a vocês,
meus caros hóspedes dum cemitério aéreo.
Sexta-feira, Agosto 07, 2009
Curitiba, 07 de agosto de 2009
Hoje é dia 07/08/09.
Você queria chamar isso de Dia Ivânico.
O primeiro Dia Ivânico deste milênio foi 01/02/03.
No ano seguinte, foi obviamente o 02/03/04.
Nestes primeiros dias ivânicos,
você não tinha plena consciência da historicidade dessas datas,
pois você estava na pré-história da sua loucura.
No dia 03/04/05, você talvez nem fosse mais você mesmo,
uma dúvida que permanece até o dia de hoje.
Em 04/05/06, a sua confiança dava sinais de recuperação,
e quem sabe uma pálida sombra daquela
sua personalidade anterior ao início dos tempos ivânicos
voltava a mostrar seus reflexos nas suas desfiguradas feições.
Em 2007, o dia 05/06 viu você passar e quis
(mas não conseguiu)
gritar-lhe:
"Ivan! Atenção: sua vida está passando
e este é o quinto Dia Ivânico do resto de todos os tempos!".
Já no ano passado, em 06/07/08,
você devia estar começando a compreender a importância
de tantos eventos significativos na sua vidinha:
a época pré-consciente dava sinais de seu fim.
Hoje, você gostaria de não ter viajado em tantas considerações
totalmente supérfluas,
queria ter feito um texto em prosa sobre tudo que acha importante,
as coisas, pessoas, ideias que ultimamente têm se revolvido
no terreno baldio do seu cérebro,
mas tudo acabou ficando por isso mesmo.
Preste atenção, Ivan:
só restam mais quatro dias ivânicos na história do universo,
e algum dia desses você vai se ver forçado a articular
tudo que poderia ter escrito nestes últimos seis anos...
Você queria chamar isso de Dia Ivânico.
O primeiro Dia Ivânico deste milênio foi 01/02/03.
No ano seguinte, foi obviamente o 02/03/04.
Nestes primeiros dias ivânicos,
você não tinha plena consciência da historicidade dessas datas,
pois você estava na pré-história da sua loucura.
No dia 03/04/05, você talvez nem fosse mais você mesmo,
uma dúvida que permanece até o dia de hoje.
Em 04/05/06, a sua confiança dava sinais de recuperação,
e quem sabe uma pálida sombra daquela
sua personalidade anterior ao início dos tempos ivânicos
voltava a mostrar seus reflexos nas suas desfiguradas feições.
Em 2007, o dia 05/06 viu você passar e quis
(mas não conseguiu)
gritar-lhe:
"Ivan! Atenção: sua vida está passando
e este é o quinto Dia Ivânico do resto de todos os tempos!".
Já no ano passado, em 06/07/08,
você devia estar começando a compreender a importância
de tantos eventos significativos na sua vidinha:
a época pré-consciente dava sinais de seu fim.
Hoje, você gostaria de não ter viajado em tantas considerações
totalmente supérfluas,
queria ter feito um texto em prosa sobre tudo que acha importante,
as coisas, pessoas, ideias que ultimamente têm se revolvido
no terreno baldio do seu cérebro,
mas tudo acabou ficando por isso mesmo.
Preste atenção, Ivan:
só restam mais quatro dias ivânicos na história do universo,
e algum dia desses você vai se ver forçado a articular
tudo que poderia ter escrito nestes últimos seis anos...




